Vamos cogitar como se transforma a pessoa que sai de uma vida de 50 anos vivendo em família e de repente se vê sozinha com as paredes, sem perspectiva de morar com mais ninguém. Quando se vive com pessoas, você se preocupa com seu comportamento a cada instante; isso é tão natural que você nem repara nisto. Você se senta de maneira delicada, anda sempre vestida, come na mesa, quando não sempre come com talheres e prato. Divide a tv com os demais gostos, toma muito cuidado com a altura da tv, escolhe um lugar na casa para ler seu livro, onde não esteja tão ocupado,e, as vezes tem que ler fora da casa por causa do movimento das demais pessoas. Se o telefone toca você atende se quiser, isto em todos os sentidos da palavra. Você não dorme até muito tarde, pois a família segue uma rotina alimentar e de compromissos que você se encaixa perfeitamente. Tudo o que é seu fica a seu redor, privacidade e individualidade é tudo. Mas, quando você mora sozinha, sem perceber se torna um bicho. Suas coisas ocupam todos os espaços, são arrumadas quando você tiver tempo (isso não incomoda e nem invade o espaço de ninguém), você dorme até a hora que quiser e vai dormir a hora que quiser...o almoço? Tem dias que nem faz esta refeição, é indiferente. Se o telefone toca você é obrigada a atender e não tem como dizer que você não está (melhor então é não ter telefone). Tanto seus livros como assistir tv é problema só seu, lê em qualquer lugar, desliga a tv se quiser, ou nem liga (tem dia que não dá vontade de ver tv). A vestimenta então, se veste se quiser, quanto menos roupas sujar melhor, economiza tudo. Você não precisa ter delicadeza na forma de se sentar, se nem roupas você não precisa usar sempre! Comer. Isso se torna secundário. Quando faz comida em casa, não precisa sujar muita louça, pode comer na panela que cozinhou. Pra que luxo? Se você passar um mês inteiro isolado, por que está de férias, quando voltar para a rotina, começa achar tudo ao seu redor uma grande frescura. Então vem a pergunta: e se um dia tiver que voltar a constituir uma família? Ai as coisas se complicam. Os utensílios e roupas de outra pessoa vão incomodar profundamente. Ter que fazer comida no horário determinado pela rotina é uma tortura. Ter que prestar contas onde vai e que horas chega, isso é muito estranho, afinal, não faço nada de errado para prestar contas. As demais coisas sempre serão motivo de muita luta, resistência, sofrimento para quem perde a liberdade e para quem busca uma nova união familiar. É uma luta constante pelo prazer de estar junto de quem se ama. Então eu penso: vale a pena lutar? Depois de tanto tempo chorando a solidão, conversando com as paredes até que elas se tornem parte do seu eu! Depois de passar tanto tempo ouvindo o som da sua respiração e dormindo abraçada com o travesseiro, vale a pena jogar tudo para o alto em busca de uma vida "normal"?
Só o destino poderá responder, o que até mesmo o coração se recusa a compreender.